A MARATONA DE AMSTERDAM

7 de julho de 2016   /   byDebs  / Categories :  Maratona
O Richard, amigo aí do lado, deve querer me matar...

Engraçado como cada maratona é uma maratona e tem suas peculiaridades! Essa foi especialmente importante, porque foi a primeira vez que corri sem me preocupar com o tempo que ia fazer, pace, cadência, nada disso. Como eu tinha corrido Chicago uma semana antes, a orientação do San era que eu corresse muito na boa, aproveitando a prova mesmo.

A largada da maratona acontece às 9:30 da manhã. Vocês podem pensar: “Nossa, mas tão tarde?” O negócio é que, faz tanto frio e amanhece tão tarde, que realmente 9:30 é como se fosse 7:30. Acordei às 6, desci pro café e aí já começaram as surpresas: uma das garçonetes veio com um saquinho de damasco seco, me deu e disse que tinham dito a eles que eu ia correr a prova ( acho que era a única do hotel que ia correr, o resto estava no Amsterdam Music Festival). Ela me deu e falou: “Leva pra largada pra comer antes.” Achei fofíssimo!!

Depois do café, o primeiro imprevisto: eu estava com uma unha levantada desde Chicago. Tinha colocado um curativo de silicone pra proteger e resolvi trocá-lo pra correr. Adivinhem?! Na hora de tirar o silicone, ele estava colado na unha e eu fiz uma extração da bendita. Gente………. Não doeu, mas aquela cena me deixou desesperada! Como é que ia correr com o dedo daquele jeito?? Mandei uma mensagem pro San, ele estava acordado pra acompanhar os atletas pelo app, e ele me disse: “põe o silicone, vaselina nesse pé e vai”. E foi o que eu fiz! Pensei comigo que não estava indo pra tempo, que se qualquer coisa dessa errada com o dedo, eu podia ir mais devagar ou parar, enfim.. Tinha opções.

A largada é do estádio. Não é muito próximo do Centro, mas os transportes públicos todos te levam pra lá, no máximo em 20 minutos ( partindo do centro). No próprio livrinho que vem no kit da maratona, eles põem todas as linhas de metrô e tram para o estádio. Eu havia combinado com a Simone, de nos encontrarmos na estação do estádio para irmos juntas pra largada. Além disso, ela tinha comprado pra mim uma blusa mais quentinha pra que eu pudesse doar na hora da largada. Mas, como eu estava me localizando muito bem pra ser verdade, no dia da maratona eu me perdi. Saí do hotel 7:15 e ainda estava noite. Fui para a Central Station, só que, ao invés de pegar o metrô, eu peguei um trem kkkk Quando vi que não tinha ninguém vestido de corredor, só uma galera voltando da balada, desci na primeira estação e fui no balcão de informações. Então, a atendente me explicou que eu estava errada, mas me disse que al;i fora mesmo, eu poderia pegar um tram e ir para o estádio. Comecei a ficar nervosa, com medo de me perder de verdade, mas quando entrei no tram e vi aquele monte de corredores, me senti em casa! Rs

Uma coisa que observei: diferente de Chicago ou Berlim, a Maratona de Amsterdam não tem tanta gente mais nova ( e mais nova digo da minha idade – quarentinha rs). A grande maioria dos corredores é bem mais velho, correm muito mais que nós e no quesito animação, dão de mil a zero nos novinhos também!

Quando chegou na estação final e descemos, eu percebi que se não achasse a Simone estaria perdida! Eu estava com um casaco que não era pra doar, e por baixo dele, só a camiseta e o manguito. Só que a sensação térmica era de uns 4 graus, com muito vento e uma chuvinha chata.

Os guarda-volumes são incrivelmente organizados. Sem fila, sem confusão. A maioria dos staffs da terceira idade, todos animados, super prestativos, uma graça de se ver! Guardei minhas coisas, tirei meu casaco e comecei a rezar pra encontrar a Si. A essa altura do campeonato, o lugar próximo da largada já estava bem cheio. Resolvi entrar no estádio pra ver se encontrava com ela ou se achava um lugar quentinho pra me abrigar. Foi quando eu conheci duas figuras brasileiras: o Eduardo, um corredor de São Paulo e um senhor que estou desesperada pra lembrar o nome e não consigo! rs É muito legal quando você vai sem muito stress de tempo, porque dá pra observar e curtir tudo. Fiquei ali conversando com eles, o Sr me contou toda a história de corrida dele: 20 maratonas mais ou menos, quase todas fora do brasil, sem falar uma palavra em inglês! Cada história, uma melhor que a outra.

Em Amsterdam, assim como em outras Maratonas fora do país, você larga em corrals que são determinados por uma faixa de tempo. A única diferença, é que Amsterdam você não precisa provar o seu tempo. Nós três estávamos no mesmo corral, o laranja, e resolvemos largar juntos e ir até onde desse pra todo mundo. O Eduardo queria um tempo mais ousado, mas o Sr “X”, queria 4 horas e achei que seria ok acompanhá-lo. O frio estava de matar e quem surge? A Simone com a minha blusa de frio! Largamos os quatro juntos, mais um brasileiro, o Diogo, que também conhecemos lá.

Como Amsterdam respira música eletrônica, a largada não poderia ser com nada mais nada menos que um som do Armin van Buuren. Não tem jeito. Mesmo sem ir pra tempo, cada maratona dá um nó na garganta antes de começar. A largada de Amsterdam é linda, dentro do Estádio. Já estavam lá na arquibancada várias pessoas que tinham ido pra torcer, mesmo com a chuvinha chata que insistia em cair.

Depois que você sai do estádio, existem alguns afunilamentos que realmente você tem que diminuir muito a velocidade. Então, se você vai pra tempo, tenha um pouco de paciência, porque essa diferença dá pra tirar depois do km 6. Assim como em Berlim, uma banda de música a cada 2km, dá aquele gás que às vezes a gente precisa. Estava tão frio que fui de moletonzinho até a entrada do Vondelpark.

Dentro do Vondelpark, comecei a sentir uma coisa me incomodando no tênis do pé que unha tinha saído de manhã. Não quis pensar muito no que podia ser, mas estava incomodando tanto que tive que parar pra ver o que era. O curativo que fiz tinha saído. Então, pus a meia, pensei: “o pé tá congelado mesmo de frio, dane-se!” E sinceramente: só fui dar notícias da dita cuja quando voltei pro hotel! kkkkk

Como eu tinha vindo de Chicago na semana anterior, onde os postos de água são a cada 2 milhas ( mais ou menos 3,2km), senti muito o fato de em Amsterdam os postos serem a cada 5km. Além disso, são curtos, então, se você quer beber água, tem que ou desacelerar demais ou acelerar muito pra pegar na frente. Isso me mostra também, que a história de não precisar de comprovação do tempo, acaba prejudicando um pouco o fluxo da prova nesses pontos. No km 13, você já está quase chegando na parte que, na minha opinião, é uma das mais bonitas da prova: as margens do Rio Amstel. Ali, é onde estão os moinhos. De um lado o rio, do outro moinhos e algumas casas. A parte do Amstel não tem muita gente na rua, porque é um pedaço mais afastado da cidade. Ali, você corre do 14 ao 25 margeando o rio. É uma parte também onde em vários pedaços, a rua fica bem estreita, então a opção é diminuir a velocidade.

Eu estava até bem até o km 15. Estava indo com a Simone, juntas praticamente. Eu sabia que não ia conseguir acompanhá-la por muito tempo, mas tentei até onde deu. Quando chegou na parte do Amstel, eu dei uma diminuída e passei a meia pra duas horas. Não estava ruim e estava tentando manter esse ritmo. O problema é que no posto de água logo depois do k 30, eu resolvi “dar uma andadinha” só pra descansar. Oi? Gente, isso não se faz rs Quando você está numa maratona, diminua o pace, mas não ande. A partir do momento que você andou, acabou sua prova. Parece que trava tudo e a musculatura não aguenta voltar pro ritmo de antes. E foi exatamente o que aconteceu comigo. Entendam: eu não estava indo pra tempo, mas travar tudo no 30, significaria andar e correr até o 42 e isso é muito, mas muito sofrimento.

Comecei a tentar usar as técnicas ensinadas pelo Time de Mental Support no dia anterior. Eu, até o 30, estava no mantra “light and smooth”, mas a minha cabeça pirou quando eu vi que não ia mais conseguir correr direto. A sorte, é que no 32, lá estavam eles: o time do mental Support. Todos de camiseta verde, com balões, sorrindo. Passei por uma menina do metal support e dei um abraço nela. Ela me perguntou se eu precisa de ajuda e eu disse que precisa terminar a prova, que não queria desistir. Ela foi comigo mais ou menos por 900m, falando várias coisas postivas, definindo comigo um novo mantra, porque disse a ela que o tal do light and smooth estava me irritando kkkkkk

A partir dali, foi uma luta entre eu e a minha cabeça. A única coisa que eu sabia é que ia terminar, nem que fosse andando. Eu já estava num estado que pegava tudo: banana, gel, água, só não tomei o isotônico. No meio do caminho, uns portugueses me passaram e disseram: “Brazil never give up!” Corri por um tempo com eles, depois deixei ir. E assim fui, conhecendo pessoas, vendo a paisagem até o km 38, onde eu sabia que já veria a mesma paisagem do quarto km. No 41, eu jurooooo que ia chegar andando, mas, um anjo, ou melhor, uma “anja” portuguesa chamada Paula Rios, chegou em mim e disse: “Você é a Debs?” Eu só fiz que sim com a cabeça. Ela disse: “Vamos correndo comigo! Voc6e vai chegar correndo! estou com o meu marido, ele está logo ali na frente, vamos vamos!!!”

Aquilo me deu um gás que vocês não tem ideia! A chegada é dentro do estádio, cheio de gente nas arquibancadas e não é que você chega e acaba. Você chega, dá uma volta olímpica e aí sim, tem o pórtico! Quando, eu entrei, já tirei minha bandeira do bolso e pensei: “vamos chegar linda na foto!”kkkkkkkk E foi demais!!! Acho que é a única maratona que tenho fotos tão lindas da chegada!

Apesar do meu sofrimento do 30 pra frente ( e isso foi única e exclusivamente porque resolvi fazer duas maratonas em 1 semana), é uma prova que vale incluir no calendário. Não é uma major, mas é plana, cheia de gente nas ruas, todas as “tribos” saem, vão torcer pelos runners e convivem de modo super pacífico. Apesar dos postos de água serem curtos, não faltou nada de água, nem de banana, nem de gel. A temperatura ajuda muito, porque não é calor e esse ano ano, a única coisa que atrapalhou no começo foi a chuva. As inscrições já estão abertas para a do ano que vem! E depois, visitem a Holanda! É tudo pertinho, país lindo, com lugares sensacionais pra conhecer!

Eu não me considero absolutamente nada, além de doida, por ter terminado essa prova. Isso só me provou que a nossa cabeça obedece aos nossos comandos. Depois de Boston, fiquei “estragada” mais de uma semana. Não podia pensar em correr nem pra tirar foto! rs Então, como explicar que uma semana depois que eu fiz Chicago, pra tempo, enlouquecida, eu consegui correr outra? É daquelas chaves que você só desvira na sua cabeça quando a prova termina.

Foi meu pior tempo na vida, mas foi, sem dúvida, uma das provas que mais curti, que mais conheci gente no caminho, que mais me lembro de tudo, sem lapsos de memória, apesar do sofrimento. É o tipo de metáfora que posso trazer pra minha vida: basta enfiar na cabeça que vou fazer uma coisa, acreditar e vou conseguir. Podem existir pedras? Óbvio! Posso ter vontade de desistir? Posso. Mas vou?

1 comments

  • Responder

    Anna / 03 out

    Debs, bom dia!

    faz um blog explicando sobre a viagem pra Disney, no aniversário da Duda?

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