A MARATONA DE BERLIM

4 de julho de 2016   /   byDebs  / Categories :  Maratona, Provas

Domingo, 29 de setembro de 2013. Foi um dia que esperei por quase um ano. Há quem ache um exagero. Eu digo: Não é. Não tem gente que sonha em ir pra Ibiza, na balada? Não tem gente que sonha em ir pro Nepal? Pois é. Eu sonhava em fazer uma maratona.

Correr, desde que comecei, sempre foi uma paixão. Foi a corrida que me curou de uma depressão depois de um término de um “casamento”. Eu falo sempre brincando, mas foi verdade. Quando tomei um pé, foi a corrida que me salvou de ir pro fundo do poço. Foi a corrida que me trouxe o Fabio. Que me trouxe amigos verdadeiros. Que por tabela, me trouxe a Duda. E me trouxe um estilo de vida bem diferente do qual eu estava acostumada.

Quando fiz a inscrição pra Berlim, estava quebrada. Fratura por stress nas duas pernas, sem correr, mas entrei no site e garanti minha vaga. Se eu ia ou não eram outros quinhentos.

E o dia chegou. O San, meu treinador, me falou ao longo de 4 meses que tudo o que eu sentia, era proveniente de medo. Medo de quebrar, medo de não conseguir, falta de acreditar em mim mesma. E disse: “Você vai ver. Quando você cruzar aquele portão, suas dores vão sumir”. E acreditem ou não, durante a prova, nenhuma fisgada na panturrilha. Depois da prova: só as dores normais de quem correu 42km. O David, que me acompanha há 3 anos, já tinha me dito isso. O Atef, fisio que me atendeu na pior fase que passei nos treinos pra maratona, disse antes de eu ir pra Berlim: ” Você pode sentir dor no cabelo, mas na panturrilha não vai sentir. Isso é a sua cabeça trabalhando contra você.”. O Ale, meu “anjo” das agulhas e da massagem, me disse:” Você precisa controlar sua cabeça. Pronta você está!”. E nenhum deles estava errado.

Todo mundo sabe que faltando um mês pra maratona, eu tive uma contratura na panturrilha. Fiquei um mês no deep running, sem acreditar que aquela maluquice poderia me trazer resultados. Fazia meus treinos de tiros na água. Fazia “longos” na piscina. Mas o que eu podia fazer? Ou era isso, ou desistir mais uma vez da maratona. Eu tinha que acreditar no San.

Domingo, 29 de setembro, Berlim. 5:30 da manhã. Toca o despertador, mas eu já estava acordada há mais de 15 minutos. Levantamos, me arrumei, tomamos café e saímos às 7:15 pra largada. Estava muito frio. A temperatura era de 6 graus, mas como ventava muito, a sensação térmica era de uns 2 pra mim. Fomos de metrô, aquele mar de gente indo pro mesmo lugar. É engraçado você observar a expressão das pessoas. Todo mundo concentrado, sem muita gritaria, sem muito alvoroço.

Chegamos na área da largada umas 7:30. Era um mundo de gente. 40.000 pessoas em busca do mesmo sonho. Uns querem bater recorde mundial, uns sub 3h, outros só completar. Mas independente de tempo, todos em busca de um mesmo objetivo: terminar os 42,195km.

A largada da maratona de Berlim, é feita em ondas, assim como nas outras Majors. No sábado, eu, nem sei como, consegui mudar pra onda F, que era o tempo de 3h:30 a 3h:45. Precisava de um certificado, mas a moça do help desk mudou sem me pedir. Eu achei que fosse um sinal kkkkkkkk que ia fazer no tempo que eu queria. Não tinha falado pra ninguém o tempo desejado, para não gerar expectativa nas pessoas e mais ainda em mim. Eu me cobro demais apesar de não ser nenhuma profissional. Se eu disser pra vocês que fui pra completar, estaria sendo hipócrita. Eu treinei duro, tinha uma meta. Pelos meus treinos, ela era 3h23min. Infelizmente, ou felizmente, eu sou assim… Sou competitiva comigo mesma. Sempre fui assim em tudo na minha vida. Pode ser ruim, mas pode ser bom também. Eu sempre tento trazer esse lado competitivo pro “bem”, porque ele te ajuda a superar obstáculos, cumprir metas.

Fomos para as “ondas” de largada. A Renata, uma amiga, largou na H, o Fabio na G e eu fui pra F. O David, meu fisio, foi comigo até a entrada do “corral”, me deu um abraço, disse: “Sua hora chegou. Vai lá e faz o que você sabe fazer.” E a partir dali, estava sozinha. Eu e mais um mundo de gente naquela onda. Quando cheguei ao local da largada, estava muito frio. Lembrei de um conselho que o Cassio Politi, um amigo meu, me deu: ” Debs, se estiver muito frio, abaixa e fica ali no quentinho até dar a largada.” E foi o que fiz. Abaixei, fiquei ali no quentinho e quieta. Mentalizei o que eu queria, me imaginei fazendo uma prova linda, sem dor, curtindo tudo. Ouvi o locutor anunciando a contagem regressiva pro nosso bloco: ” Five, four, three, two… GO!”. E começou a tocar uma música que não sei qual é, mas que me deu uma coisa tão forte, que comecei a chorar. Eu sabia que aquele era meu dia. Era o dia de mostrar pra mim mesma que vale a pena lutar por uma coisa que você queira muito. Passei no tapete que marcava o tempo e comecei a correr.

Tentei me lembrar de tudo que planejei. Me controlar no começo, não sair igual a um cavalo paraguaio, desvairada. O céu estava azul, as ruas lotadas. A cidade para pra ver a maratona. No número de peito tem o nome do atleta. Eles te gritam pelo nome, pelo país. Eu estava com um manguito do Brasil, então muita gente gritava: “Go, Brazil!”.

Passei a rotatória que divide o começo da prova e me lembrei de várias fotos da vista aérea da maratona. E pensei: “agora concentra e vai”. Logo no 5km eu tirei a luva. Pus no bolso da camiseta e fui embora. Olhava no garmin e estava correndo tranquilo. Eu ainda estava com medo de puxar muito no começo e quebrar no fim. Eu sabia o que tinha que fazer, mas confesso que até o km 5, a cabeça ainda trabalhou meio contra. A temperatura ajuda demais. É outra coisa fazer uma prova num frio como o de Berlim. A coisa flui muito mais fácil.

Fui até o km 12 num pace medio de 4:45. Já estaria no lucro se fosse a prova toda assim. No km 13, me senti muito bem. Eu olhava no garmin e o pace baixando. Deixei fluir. Fechei até o km 19 oscilando entre 4:38 e 4:43. Eu sei que não deveria ter feito isso. O planejado era manter o pace reloginho, mas como não sabia o que vinha pela frente, achei por bem tirar a diferença no começo. Rs. Posso dizer pra vocês que até o km 20, fui curtindo a prova. Vendo todas as bandas, sentindo a energia do povo que estava na rua. Eu estava correndo feliz. Nenhuma dor, nenhum pensamento ruim.

A cada km que apitava no garmin, eu me sentia cada vez melhor. Eu não queria criar excesso de confiança, mas era como estava me sentindo: confiante. As ruas lotadas, eu estava sempre indo pela esquerda, então sempre tinha alguém gritando meu nome. As crianças super participam da maratona. Elas ficam com as mãos estendidas pra você bater quando passar. A energia é demais! A cada 500m tinha uma banda tocando, não dava pra desanimar.

A cada 5km tinha um tapete que a gente passava pra marcar a passagem. Juro que a cada tapete, eu falava alto: “Pega essa passagem, San!” Kkkkkkk

Passei a meia pra 1h41min. Melhor do que o tempo previsto. Perdi um pouco o ritmo nos postos de água. Era muita gente, os postos de um lado só, então era uma muvuvuca pra pegar. Além disso, a água não é em copo fechado como aqui no Brasil. Eu já sabia disso. Os copos são abertos, então, nos primeiros postos, eu meio que me afoguei com a água. Rs.

Fiquei nervosa em alguns postos porque tive que diminuir muito a velocidade pra não atropelar ninguém. Mas fui desencanando porque saía “no pau” e tirava a diferença.

No km 25 era a hora programada pra tomar o Advil. Eu coloquei as luvas no mesmo bolso onde estavam as duas cápsulas. Só que na hora de tirar, caíram as cápsulas de Hmb e uma de advil no chao. Foi 1 segundo pensando, mas decidi não voltar pra pegar. Tomei um advil e fui embora.

No km 30, passei com 2h25min. Eu lembrava que meu treino de 30km fiz pra 2h30 certinho. Então, tinha uma folga de 5min. Confesso que quando passei o 32, me deu um frio na barriga. Dali pra frente, eu não sabia mais como meu corpo ia reagir. Até ali, eu estava muito bem. Melhor que em qualquer treino. A perna não estava pesada, não tinha dor. Mas a cabeça já não estava tão ligada em curtir os fatores “externos” à prova.

A partir do 30, comecei a focar muito na passada e na respiração. A nossa tendência quando cansamos e meio que “sentar” no quadríceps e correr numa postura horrorosa. Eu estava muito concentrada em não deixar isso acontecer. Sempre atenta aos ombros, lembrei muito das poucas aulas que tive no Gyrotronic, com a Michelle. “Ombros pra baixo,Deborah” – eu repetia em voz alta mesmo.

Do 33 ao 37, meu pace oscilou muito. Era 1km a 4:45 outro a 4:55. Alternando assim. Me disseram que tinha um “muro” no 36. Sinceramente, não senti nada disso. A perna pesou? Pesou. No 36. Mas nada que “desligasse” a chave. A partir do 37, a cada km que apitava, eu falava pra mim ( alto mesmo rs):” Bora que tá acabando!”. Essa foi uma tática que usei em todos os longos. Falar comigo mesma em voz alta. “Tô nem aí” que os outros me achem louca. Eu me auto-incentivei a cada apito do Garmin.

Não é fácil você ver a partir do km 38, tanta gente quebrando, mancando, chorando, andando. É nessa hora que você tem que abstrair tudo que está ao seu redor. Eu baixei a cabeça, concentrei e fui. Não olhei pro lado, não vi ninguém quebrando. Comemorava a cada km que o garmin apitava. Falava alto pra mim mesma: “Bora, só mais um!”. Não pensem que quando chega no 38, você vai pensar: “Nossa, só faltam 4!”. Eu tentei pensar assim e percebi que iam ser os 4km mais compridos da minha vida. Então, resolvi festejar sempre mais um.

Hoje, lendo tudo isso, eu consigo ver o porquê da maratona. Exatamente o que eu descrevo a partir do km 38 é o que acontece num certo ponto do tratamento, da quimio. Você não sabe o que vem pela frente, você não sabe como o corpo vai reagir a cada sessão. Mas você sabe que tem que terminar. “Quebrar” não é uma opção nem na corrida, nem na vida. Hoje, faltando 11 sessões para acabar meu tratamento, eu prefiro não pensar assim. Senão, seria como na maratona: os kms mais longos e sofridos da minha vida. Prefiro pensar: “que bom, já foi mais uma! Agora falta menos do que faltava antes!”.

Só que no km 39, comecei a ter umas cãimbras no posterior da coxa. E foi exatamente num posto de água. Eu diminui e pensei: “Vou parar 20 segundos pra beber água e dou um tiro”. Ao mesmo tempo respondi: “Larga mão de ser louca. Vc acha que vai dar tiro depois de correr quase 40km? Deixa a água e vai.” Só passei, peguei um copo, joguei metade na cabeça, tomei um gel que tinha levado de reserva (não sei o que ele ia fazer por mim àquela altura do campeonato rs mas tomei) e fui. Uma coisa que fez a diferença: as pessoas gritando na rua. Quando você pensa em desistir, em andar, quando a dor bate, parece que sempre tem alguém ali que vê isso no seu rosto, olha no olho e diz: “GO!”.

Ali, naquele momento, eu soube o que é a cabeça mandar e o corpo não responder. Que raiva! Eu tentava correr, olhava no Garmin, o pace subindo. 5:00min/km, 5:05min/km. E foi a 5:05 que fechei o 39.

Hoje, acho que estou passando pela mesma sensação do km 39. A cabeça mandar e o corpo não responder. A cabeça quer que eu levante, animada, vá pra academia. mas o corpo pede descanso. Mas durante um tratamento desses, você tem que saber a tênue linha que separa “o corpo quer descansar” da preguiça que pode se instalar. O exercício é muito importante nessa fase do tratamento. Todos os meus exames de sangue provaram isso. Só que há 15 dias eu dei uma desencanada de academia e na última bateria de exames que fiz, o corpo reclamou da falta dele. Eu ia trancar a academia, mas, olhando pros meus resultados e conversando com meu onco, se eu parar, vou cair. A cabeça com certeza não vai ficar tão positiva. A quimio destrói tudo, inclusive serotonina e endorfina. Se você não buscar esses hormônios através do exercício, a depressão é quase certa. E, como já disse, “quebrar” não é uma opção.

Me lembrei do que o Bruno tinha me dito na véspera da prova: “Quando você passar o km 40, vai ter um cotovelo. Ali, acabou. Não tem como não dar um sprint.” Quando o relógio apitou o final do km 39, eu tirei gás de onde não tinha pra chegar logo, terminar a prova. Eu já sabia que ia fazer sub 3h30min, a não ser que quebrasse feio, coisa que “parecia” impossível de acontecer. Passei o 40 a 4:59min/km.

Então, o que eu achava que não ia acontecer, aconteceu. Subiu um “urso” nas minhas costas. Foi o pior km da maratona. As pernas não respondiam mais. Doía meu dedo do pé direito, doía uma unha do esquerdo, a coxa, as panturrilhas. Pensei: “Vou andar.” Daí eu pensava: “Já correu até aqui, vai andar? Deixa de ser fraca!!!” E mandava minhas pernas irem o mais rápido que conseguissem, mas elas não iam. Daí lembrei de uma coisa que alguém me falou uns dias antes da maratona: ” Se doer, puxa lá do fundo da alma e corre com o coração”.

Pois é. O câncer e todas as consequências que ele traz, dóem. Dói tudo. Dói a vaidade, dói a auto-estima, o amor próprio. Dói você não conseguir levar a sua vida normalmente. Dói você ver sua família impotente diante do seu sofrimento depois de uma sessão de quimio. Dói a alma. Mas só quem pode acalmar essa dor é você mesmo. Mais que a maratona, o câncer é um processo de auto-conhecimento profundo. Ou você gosta da sua própria companhia, ou você pira. É você com seus pensamentos, com seus questionamentos, de frente pra um espelho, completamente desnudo, perguntando quem é que está ali. Eu não consigo me olhar uma vez sequer no espelho sem perguntar: “E agora? Quem é essa Déborah que está aqui?”.

Hoje eu me pergunto do que ou de quem eu corria tanto. A vida me deu muitos sinais pra eu parar e olhar pra dentro de mim mesma. Eu não soube ouvir. Aí, sabiamente, ela me obrigou a parar. E eu tenho hoje, a resposta pra essa pergunta. Eu corria de mim mesma. Corria dos medos, das minhas mágoas guardadas, de uma Déborah que talvez eu não quisesse ver. Pode ser que eu ainda olhe no espelho, eu não saiba quem é essa Déborah, mas sei que pelo menos, ela “está” no corpo que a vida destinou pra ela. “Aquela” Déborah de antes não volta mais. talvez até, porque ela nunca tenha existido realmente. A Déborah de antes do câncer talvez fosse um “personagem” para esconder tantas coisas que saíram das “gavetas” agora.

Apitou o km 41: 5:15min/km. Faltava só mais 1,195m!! Comecei a correr, vi o portão. Lindo, majestoso, exatamente como eu tinha visto no dia anterior. A diferença, é que agora, além do portão, havia milhares de pessoas gritando, tocando corneta, com apitos, incentivando, empurrando, gritando. Tirei o manguito do Brasil e comecei a correr com ele no alto, sacudindo. E um monte de gente gritava: “Go, Brasil!”. E aí, o choro explodiu. Exatamente quando passei por debaixo do portão. Faltavam poucos metros pra eu realizar um sonho de 5 anos.

Hoje, eu encaro o dia 04/06/2014, como o portão de Brandemburgo. Cada dia que passa falta menos pra cruzar a linha de chegada. Mas, ao contrário de Déborah de antes, que estaria ansiosa, sem prestar atenção em nada ao redor, eu estou vivendo esse processo de auto-conheciemento e transformação intensamente. Aprendi, na marra, a viver um dia de cada vez. Aprendi, exatamente como na maratona, que alguns amigos vão ficar, outros vão sair. E no dia 04/06, eu vou estar lá, cruzando a linha de chegada, feliz da vida, por ter vencido mais uma maratona na minha vida.

E passou um filme na minha cabeça: de todas as lesões que me impediram de correr, as dores que senti, as madrugadas que a Duda acordava e mesmo assim eu ia pro parque às 5:45 da manhã, a contratura na panturrilha 1 mês antes, os meus choros na fisio, os treinos de tiro que achava que não era capaz, do San falando que a minha velocidade da maratona já estava dentro de mim… Enfim… Um curta-metragem. E cruzei a linha. Eu não via ninguém, só olhava o relógio e falava pra mim mesma: “Sou sub 3h30min!”.

E com certeza, nesse dia, vai passar um filme dos últimos 6 meses na minha vida. Da descoberta, à cirurgia, ao medo de ficar mutilada, o pós operatório, a notícia que ia ter que fazer a quimio, a primeira quimio, os efeitos. Posso dizer que tenho aprendido mais em 84 dias do que na minha vida inteira. Questionamentos ainda vão existir. O auto-conhecimento não se encerra com o fim das quimios… Ele apenas começou com a descoberta da doença. Hoje, a impressão que tenho, é que tenho abri um armário que estava bem bagunçado, caíram várias coisas e estou ainda sentada numa cadeira, olhando para as coisas e pensando qual a melhor forma de arrumá-las.

Eu não nasci correndo. Sempre falo isso. Tudo o que aconteceu nessa maratona foi fruto de muita dedicação, de muito esforço, de muita disciplina. E de muito desejo.

Eu não me lembro onde eu li, que antes de você correr uma maratona você tem que saber o porquê de estar fazendo isso. Porque em algum momento da prova você vai se perguntar. E se você não tiver a resposta, você vai desistir. Não vai fazer sentido pra você estar ali, sofrendo – porque sim, você sofre- se você não souber o porquê. E desculpem, uma maratona não se corre porque o Fulano correu e você achou legal. É muito mais que isso.

Eu não sabia o real motivo de ter me preparado e corrido uma maratona. Hoje eu sei. A maratona foi um preparo pro que vinha pela frente. Eu faço muita correlação entre Berlim e esse processo do câncer. Definitivamente estou trazendo a disciplina da corrida pra superar tudo isso. Tem horas que penso: “quero minha vida de volta”. Aí paro, agradeço por não ter sido com a Duda ou com o Fábio e penso: “sua vida você já tem.” Tive a chance de “nascer” de novo. Essa é a verdade. Nasci de novo. Tenho quase 90 dias de vida. E assim como um bebê, ainda estou me adapatando ao mundo…

O esforço de correr uma maratona é surreal. Mas a sensação pós maratona é igualmente surreal. E posso dizer a vocês que dura muito mais do que aquele minuto que você cruza a linha de chegada. Todas as vezes que vejo as fotos ou vejo o vídeo, choro. “Viajo” de novo pra todas aquelas sensações.

O esforço de passar por uma quimio também é surreal. Conversando com a mãe de uma amiguinha da Duda, ela me disse: “Meu pai desistiu na segunda quimio vermelha”. As vermelhas, que foram as quatro primeiras, foram as piores. É bem verdade, que passei pelas duas primeiras, como se nada tivesse acontecido. mas a terceira me derrubou. Eu literalmente não conseguia abrir os olhos. Não conseguia sair do quarto. Me assustei. E confesso que falei pro Fábio que não ia aguentar. mas você só fala, porque lá no fundo, vem uma vontade muito maior que é a vontade de VIVER. Voc6e pensa “por que comigo?”. Pensa. Você imagina toda a sua vida sem isso? Imagina. Mas não tem op’ção. Ou é passar por isso como um furacão ou é deixar que o câncer seja um furacão e te arraste pro fundo do poço. E fundo do poço até existe em alguns momentos, mas não é uma opção pra ficar.

A maratona mudou a minha vida em alguns aspectos.

O câncer mudou minha vida em TODOS os aspectos. mas acho que só vou conseguir falar sobre isso num próximo post.

Como disse no dia da prova, eu nunca imaginei que tanta gente que não conheço, fosse acordar na madrugada pra me acompanhar. Eu recebi carinho de onde menos esperava. Isso foi uma força a mais na minha prova. Eu sabia que tinha muita gente sofrendo comigo. Você acha que as pessoas que convivem com você têm a obrigação de saber o quanto uma “simples” maratona seria importante na sua vida. Muita gente que eu esperava que fosse mandar um “oi” não mandou. Aí você pensa: “ah é porque Fulano não vive esse mundo do esporte”. Não, não é. Trata-se de ser amigo na hora da realização de um sonho. Qualquer que seja ele. Esse foi o primeiro aprendizado que essa prova me trouxe. Eu sempre me dôo demais pros outros. Sempre. Isso gera em quem doa, uma expectativa. E quando ela não se concretiza, fica um vazio, sabe? Mas essa prova me ensinou que tem gente que torce de verdade sem nem te conhecer. Mundo virtual? Será? Porque tudo o que senti vindo de cada um que estava lá conectado, foi muito real.

Eu descobri que não importa quão pequeno seja seu sonho, se você tiver determinação e vontade, ele demora, mas se concretiza.

Descobri que não sou louca! Rs Vi que tinham 39.999 pessoas querendo a mesma coisa que eu!

Confirmei o que sempre digo: a corrida só é egoísta pra quem quer que seja! Durante a prova, eu corri com umas 3 ou 4 pessoas, por alguns km, sem falar nada. Só um olhar que dizia: “Força, estamos no mesmo pace, vem comigo!”. Só quem corre sabe que é assim.

Descobri que temos uma força interior que pode sim, comandar nosso corpo quando ele está em exaustão. Isso é correr com a alma. Comandar a nossa cabeça quando estamos cansados é uma arte. A maratona consegue te ensinar isso em 42km. E é uma coisa que você pode levar para a sua vida. Se você está fazendo uma coisa porque quer, puxe lá do fundo da alma a vontade de acontecer. Ela vai acontecer.

Descobri que não somos picados pelo bichinho da maratona na prova. A prova é “só” a cereja do bolo! Você vai querer ou não fazer outras a partir dos treinos. Isso é fato. Duro é treinar pra ela! Duro é fazer 32km na USP, debaixo de um sol de rachar. Duro é você acordar 3x por semana às 5 da manhã pra correr. Duro é ter que ouvir de alguns que você não vai conseguir. Isso tudo é duro! Agora, fazer a prova? Fazer a prova é coroar seu esforço. É provar pra você mesmo que sim, você é capaz. A maratona te deixa forte. Te traz um sentimento de “super-herói”.

Descobri que lá fora, eles dão muito valor ao esforço dos que fazem a prova. Além das ruas serem lotadas em todos os km do percurso, deles gritarem pra o maior número de amadores possível que estão ali com aquele propósito, eles vibram quando te vêem na rua depois da prova, com a medalha. Saímos pra jantar e todos os que tinham feito a prova estavam com suas medalhas no pescoço. Todo mundo na rua te cumprimenta, te dá parabéns. É muito emocionante! É uma cultura bem diferente da do Brasil, onde as pessoas reclamam que os corredores estão atrapalhando o trânsito.

E sim, descobri que eu tinha muitos fantasmas que se transformavam em dores. Eu senti cansaço, eu perdi duas unhas, um dia depois da maratona, tudo doía. Mas eu não tive nenhuma fisgada na panturrilha. Não doeu onde doía 1 semana antes da minha viagem. Coincidência? Sorry, não acredito em coincidências. Da mesma forma que nossa cabeça trabalha pro nosso bem, ela também pode acabar com a gente. A dor pós maratona é uma dor de glória, de êxtase, de missão cumprida. Você não sabe se ri ou se chora. Você vai no seu limite e descobre que pode ir mais além!

Fiz 3 min e 36 segundos acima do tempo que era previsto. Fui a 381 colocada entre 9000 mulheres. A 7 melhor brasileira. Como eu disse, eu tenho amigas que amam fazer maratona pra completar, pra curtir a prova, pra ver cada detalhe do percurso. Eu sou sangue “nozoio”, como brincava um amigo meu. Eu gosto da sensação de bater metas. De me superar. Pra primeira maratona foi maravilhoso. Terminei bem, num tempo lindo. O que tinha que provar PRA MIM MESMA, provei.

Quero que a Duda aprenda tudo isso com o esporte. Eu aprendi coisas em 42km que demorei a vida toda pra colocar na minha cabeça. E são lições que não vão mais sair de dentro de mim.

E, finalmente, confirmei o que já sabia: corra atrás de um sonho com garra, perseverança e disciplina. Projete mentalmente o que você deseja. O resto, deixe por conta do universo. Ele sempre atua a favor. Se você deseja com o coração, com a alma, é um desejo sincero. Ele se encarrega de colocar a energia a favor.

Agora com certeza, vocês estão se perguntando: “Será que ela foi picada pelo bichinho da maratona?” Com certeza. Aguardem o próximo #vemcomigopra…

Deveria ser #vemcomigoprachicago, mas acabou virando #vemcomigopracura…

1 comments

  • Responder

    Leticia / 10 jul

    Lindo depoimento! Estou indo pra minha primeira maratona e ler o seu relato, com toda sua preparação e também o pós e as novas dificuldades, só nos dá mais força! Inspirador! Obrigada!

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