A MARATONA DE BOSTON

7 de julho de 2016   /   byDebs  / Categories :  Maratona

Esse relato era pra ter ido pro livro. Mas sabe o que aconteceu? Bloqueio criativo, como diz a minha amiga Corre Paula. A Regina, da editora Gregory, me pediu, disse que ia ficar top como último capítulo, mas eu amei tanto o final do meu livro, que não cabia colocar Boston lá. E além disso, eu espremia, espremia e não saía nada.

Comecei a pensar o porquê desse bloqueio. Não era o que eu queria? Era. Não foi a viagem dos sonhos? Foi. Não foi encerramento de em ciclo? Sim! Então por que? Não sei! Talvez, não estivesse psicologicamente preparada para fazer uma maratona ainda. E ainda mais uma prova dura como Boston. Só que ontem, fazendo minha yoga, me veio uma vontade enorme de escrever sobre a prova.

Eu estava mesmo, era ansiosa pra pegar o meu número de peito, ver a feira, sentir mais ainda o clima da prova. Desde o aeroporto aqi no brasil, as pessoas já entram no clima. Cada ano, a Boston Athletic Association, faz uma jaqueta de uma cor diferente. O que identifica se você é das “antigas” em Boston, é a cor dela. E aí, no aeroporto, via-se um festival de cores e pessoas de todas as idades, mas muita gente mais velha, e, principalmente homens. Nós fizemos uma conexão em Nova York, e lá, o avião com destino a Boston, lotou de corredores. o mais legal, é que até os comissários entram no clima! Dão parabéns aos corredores, o piloto saúda a todos nós pelo rádio.

Boston é uma cidade linda, pequena, toda organizada, que respira a Maratona, principalmente depois do atentado de 2013. Como contei antes, é a maratona das maratonas, porque pra correr, ou você tem o índice, ou compra a inscrição fazendo doações para instituições designadas pela organização. Todo ano, são arrecadados milhões de dólares em Boston, que são distribuídos entre Hospitais e Centros de caridade.

Diferente de Berlim, onde fui toda focada em tempo e nem quis saber de andar pela cidade, em Boston, chegamos, deixamos as coisas no hotel e fomos bater perna. Tenho uma amiga que morou lá e me fez um guia de Boston para 4 dias rs. Nesse primeiro dia, que foi a sexta, chegamos quase na hora que a feira abria. Eu queria muito conhecer a cidade, mas antes de qualquer coisa queria pegar meu bib e sentir o clima de uma maratona de novo. Eu, normalmente, gosto de ir uns dias antes da prova, mas os hotéis em Boston, principalmente se você quer perto da chegada, são absurdamente caros. Então, como a prova era segunda, resolvemos chegar na sexta.

O portão da Expo abria às 13. Antes disso, fomos a uma base da Adidas montada na Avenida onde termina a prova. Ali, já deu pra sentir um pouco, o que seria o clima da Expo. Pessoas ENLOUQUECIDAS comprando até cueca de Boston kkkkk, uma maquete da altimetria da prova (e ali eu vi que o bicho ia pegar! rs). Faltando 5 minutos para abrirem os portões, fomos pro prédio da Expo. Acho que fui uma das primeiras a pegar o kit. E adivinhem? Abri o bocão a chorar! A Marta, minha amiga que já fez Boston duas vezes, tinha me dito que isso ia acontecer, mas eu achei que ela estava exagerando. Não gente, não é exagero…É uma vibe totalmente diferente de qualquer prova que eu já tenha feito na vida. Quando ela me entregou aquela sacola, passou um filme na minha cabeça.

Começou desde quando recebi o diagnóstico, com aquela agonia que parecia que não ia passar nunca. Depois a cirurgia, a notícia da quimio, as primeiras delas. A terceira que eu passei muito mal e pensava se ia conseguir voltar a fazer alguma atividade física na vida. O cabelo que caiu, o inchaço dos corticóides, os batimentos indo a 160 quando eu lavava uma louça. Lembrei de quando eu terminei a quimio, da viagem pra Indonésia, da volta aos treinos, do email de qualificação pra Boston. E naquela fração de segundos, eu pensei que realmente era uma doida em estar lá. Fazer 42km depois de 8 meses de ter terminado a quimio? Socorro! Quem mais faria isso? Ali, fiquei pensando, mas esse é um segredinho nosso, se eu realmente deveria estar ali. O problema, é que se não fosse esse ano, sabe lá Deus quando conseguiria o índice pra voltar. Ali, recebendo o número, percebi que estava uma pessoa bem diferente daquela que correu Berlim. Claro, queria o tempo, mas estava consciente que seria bem difícil conseguir. E, diferente da Deborah que aprontava um escândalo quando não podia correr, ali, eu só queria encerrar um ciclo na minha vida, da mesma forma que comecei e encerrei tantos outros: correndo.

A feira é bem grande, mas não tem nada de extraordinário. Sinceramente, em termos de espaço, organização e produtos, achei a de Berlim bem mais sensacional. Voltamos pro Hotel e tomei a decisão de não deixar de conhecer a cidade em função da Maratona. Seriam poucos dias, Berlim eu praticamente fiquei no hotel pra descansar, mas ali, era minha primeira viagem de férias depois de tudo, então eu queria aproveitar!

No sábado, fomos conhecer Harvard. Pra quem nunca foi, vale muito a pena conhecer. O legal, é que os próprios alunos guiam grupos de turistas, explicando o que é cada parte, contando a história, realmente muito interessante! Deu até vontade de que a Duda estudasse lá! Passamos quase o dia todo em Harvard. Depois de bater perna pela Universidade, fomos andar pela cidade, pegamos o metrô e voltamos para almoçar num restaurante próximo ao hotel com uns amigos.

O melhor de Boston e arredores, assim como na maioria das cidades americanas, é que o metrô funciona muitíssimo bem! Então conhecemos muitos pontos de metrô, outros andando. E muito! rs

No domingo, o clima estava perfeito! Um sol, céu azul, apesar do frio, um ventinho gostoso. Pensei com meus botões que se o clima continuasse igual, seria um dia perfeito pra correr uma maratona. Masss, como nem tudo são flores, por volta de 16h recebemos um email da organização, pedindo para revermos as roupas. A previsão era que o tempo virasse. Ia chover, ventar e fazer muito, mas muito frio. Fiquei desesperada porque não tinha nada térmico. Não gosto de correr de calça. mesmo em Berlim, que largamos com 5 graus, corri de bermuda. Mas ali, pela previsão, eu ia congelar se fosse de bermuda. A minha sorte, é que nos 45 do segundo tempo, coloquei uma calça na minha mala. Foi a salvação. Blusa de manga comprida, peguei uma térmica do Fabio e deixei tudo pronto. Ainda tinha tanta esperança que a previsão estivesse errada, que deixei a bermuda separadinha! Rs

Véspera de provas como maratona, eu nunca durmo muito bem. Coloco três despertadores, mais o do hotel pelo telefone. Isso tudo é medo de perder a hora. Eu estava meio nervosa com o café-da-manhã, porque como estou fazendo a paleo, tinha que ser algo que eu estivesse acostumada a comer. Fui tão desencanada, que não pensei nisso nos dias anteriores à prova. Acordei às 5:30 e a primeira coisa que fiz foi olhar pela janela. Tenso. A previsão tinha acertado e o dia estava simplesmente horrível! Dava pra ver lá de cima as árvores balançando com o vento, mas pelo menos não estava chovendo (ainda rs). Desci pro café, encontrei a Marta e o Pedro, dois amigos que também iam correr lá embaixo. Não tinha muito oba oba porque o pessoal estava meio nervoso. Eu nunca tinha feito isso, mas o frio estava tanto, que levei um moletom velho pra doar na hora da largada. ( lá, assim como em outras provas, você deixa nuns cestões e depois essas peças são doadas).

A largada de Boston não é na própria cidade. É numa cidade chamada Hopkinton. Então, você pega um ônibus da organização em Boston, todos com horários pelas ondas de largada, e vai por 40 minutos passando pelo percurso da prova. São aqueles ônibus amarelos escolares, tipicamente americanos, só que lotados de corredores. E adivinhem o assunto? Corrida! Aliás, Boston! Ali você conhece gente de todos os cantos do mundo, das mais diferentes idades. Gente que você olha e pensa: “quero chegar nessa idade correndo Boston!”. No meio do caminho, a chuva. Não era um chuvisco, era uma chuva forte, torrencial. Detalhe: chegaríamos no campo de futebol onde é a concentração às 8:40 pra largar às 10:15. Só pensava que já ia sair feito um pinto molhado pra correr e no frio que ia sentir.

Quando chegamos em Hopkinton, o campo da escola mais parecia um campo de refugiados! Rs Aquele mundo de gente, enrolado em sacos térmicos, muitas pessoas sentadas no chão, juntinhas umas das outras para aquecer. Mas a organização é incrível. Tinha chá quente, café, pães, gel, gatorade. Tinha uma infinidade de banheiros e um homem anunciando o tempo todo no auto-falante qual onda estava próxima de largar. Eu e o Pedro fomos juntos, sentamos ali num puxadinho e começamos a conversar. Logo, encostou um brasileiro, de Santo André, e ficamos esperando a hora da chamada. O Pedro foi primeiro que eu, o Corral dele era o 1 ( corre muito! rs). Logo chamaram o meu e lá fui eu, sozinha, de moleton velho, enrolada num saco, nem um pouco pronta pra correr! Sabe aquelas coisas que a gente pensa no 39 da maratona? “Por que eu fui inventar isso!”, pois é. Pensei antes mesmo de chegar na largada kkkkk

Eu sempre digo que o dia da prova envolve um fator chamado SORTE. Além de voc6e estar num dia perfeito, sem nenhuma dor de barriga, tem os fatores externos: clima, chuva, asfalto, quantidade de pessoas, enfim, várias coisas que podem acabar ou fazer sua prova ser mara! Aquele dia eu já tinha sentido que não ia ser perfeito como Berlim. Eu gosto de correr no frio, mas a sensação térmica era de mais ou menos -1 por causa do vento e da chuva. Não estou acostumada a correr de luva e não dava nem pra pensar em tirar ela. Tinha levado um óculos de sol, nem sei porquê kkkk, mas ia ficar aquele trambolho pendurado na cabeça. Enfim, era entregar nas mãos de deus e fazer a minha parte.

Quando cheguei na largada, hora de tirar o moletom. Jeus!!!!! Que frio!!!!! Começou a tocar uma música, vi que o povo começou a andar e deu a largada da nossa onda! Eu tinha na minha cabeça que não podia acelerar demais, senão ia quebrar lá na frente. A dificuldade de Boston é exatamente essa: ela começa numa descida insana, que quando você olha pro relógio está fácil a 4:35min/km, sem nem estar cansando. Só que a conta disso chega. Então, eu fui muito focada em não acelerar. Eu queria ser um reloginho até a primeira das quatro subidas mais insanas, porque a partir dali, eu sabia, aliás NÃO SABIA, como ia ser.

Uma das únicas fotos sorrindo, foi a da largada. Eu estava com uma expressão tão feliz que é uma das minhas preferidas! Me deu uma vontadee de chorar, mas me segurei, porque sempre me lembro do San falando pra mim: “Ou corre, ou chora! Os dois, não dá!” Como previsto, quando olhei pro Garmin, estava a 4:40. Na hora já falei pra mim mesma: “Segura agora!” Dei aquela freiadinha e comecei a seguir uma menina que parecia estar no mesmo ritmo que eu. Largamos sem chuva, mas já no km4 começou a chover. Tudo bem, pelo menos já estava correndo! Rs Consegui encaixar o ritmo seguindo a minha “companheira” e, diferente de Berlim, consegui prestar atenção a tudo que estava à minha volta. As pessoas, as expressões, os voluntários, a torcida, que mesmo com chuva e frio, estava em peso na beira da estrada gritando e torcendo por nós. Se tem uma coisa que dá um gás é a torcida. Se você está com uma camiseta com seu nome, aí então é festa garantida! Eles gritam seu nome, incentivam, torcem!

Passei a meia-maratona sorrindo, feliz, estava num pace gostoso, só esqueci que estava descendo até aquela metade. Rs. Até tinham umas subidinhas, mas eram bem de leve. A metade do percurso é no Wellesley College of Liberal Art. É um colégio só pra “meninas” e elas ficam penduradas na grade, gritando e tocando sinos feito loucas, segurando cartazes, pedindo beijo aos corredores! Eu já tinha lido sobre essa passagem da prova, mas não imaginava o barulho ensurdecedor de tanta mulher gritando junta. Não tem jeito de você não ouvir. Uns 400m antes do Colégio o barulho já é bem ensurdecedor. É muito divertido ver os corredores: muitos entram no clima, saem dando selinho em várias, outros, só tapinha na mão, os mais concentrados fingem que não vêem e as mulheres passam dando risada. Ótimo esse momento de descontração, porque o que vem depois, pra mim, foi sinistro.

Eu já sabia que era depois de Wellesley que viria a primeira das quatro subidas mais “temidas”em Boston. Vejam bem: a prova não é plana até o 21km. Aliás, ela não é plana em lugar nenhum. É um sobe e desce o tempo todo, mas subidas perfeitamente controláveis. Quando passei o College, esperei, esperei, e nada da subida. A tolinha pensou: “Ah, vai ver nem é tão ruim assim.” Mas aí, ela chegou. A primeira subida, com 1 km de extensão e inclinação de 2,5 graus foi onde eu efetivamente quebrei. Quebrei, gente rs. Eu vinha a 4:55min/km, achando que estava arrasaniii, como diz a Paula. Quando eu comecei a subir, não quis mais olhar pro Garmin. Cobri com a blusa e fui. Só não queria andar. O que me deixou mais abismada, é que os americanos simplesmente não diminuíram o passo. Continuaram no mesmo ritmo e aí perdi minha companheira de vista. Mas lembrava do que a Paula falou pra mim em alguns treinos na biologia: “passo curto, força no abdomen, não fica bufando! rs” e fui. Tudo o que sobe desce. Achei que a descida ia ser tranquila, mas a perna não obedecia. Eu queria soltar e o quadríceps estava travado. Comecei a sentir dor na panturrilha e lembrei que ainda tinha mais três subidas pela frente. Estava chovendo bastante, a luva estava toda molhada, a essas alturas, os voluntários, além de dar água, estavam abrindo o gel pra quem não conseguia. Então, onde eu tomava gel, parava pra eles ajudarem. O que, de verdade, não foi de todo ruim kkkk, porque eu dava uma descansadinha. Parei de querer me cobrar o tempo, só queria que passassem as subidas e terminasse a prova.

As duas subidas seguintes, têm uns 600m de extensão, talvez um pouco menos, mas a inclinação é bem mais acentuada. Eu tinha combinado com o Fábio, que ia tentar manter um ritmo de 5:50min/km nas subidas, mas na terceira, eu estava quase andando. Lembrei mais uma vez da paula, que me disse uma dia, que era melhor trotar numa subida que andar. Então, fui no trotinho paquera, mas bufando, quase sentada em cima do quadríceps, xingando cada metro daquela subida. Pensei comigo: “E nem chegou a Heartbrake Hill”. A Heartbrake, tem uns 650m de extensão ( menos que uma biologia), mas a inclinação dela é… bi-zar-ra. A média é 4,6, mas em alguns pontos, chega a 5,2. Além dessa inclinação, essa subida é apenas no km 33. Ou seja, a perna está cansada, panturrilha e quadríceps destruídos de tanto sobe e desce. É, sem dúvida, a pior parte da prova pra quem odeia subidas como eu! rs Quando eu cheguei no “pé” dela, pensei nela como a minha terceira sessão de quimio. Doeu, passei mal, mas passou. Só pensava que não tem sofrimento que dure pra sempre! Aquele ia durar só 650m. Os 650m mais eternos da minha vida!

Eu odeio fazer prova sofrendo. Não sou turma do “No Pain, No Gain”. Não acho que você tenha que acabar uma prova destruído. Não acho que tenha que sofrer. Quando passei a Heartbrake, ainda tinha mais 8km pela frente. Comecei a pensar em milhas, pra parecer menos, porque estava duro continuar. Eu pensei não foram nem uma, nem duas vezes em desistir. Mas aí pensava no Aquino naquele friooooo me esperando, pensava que foi durante muito tempo meu sonho estar ali, pensava no que passei e onde estava naquele momento. A perna não ia mais, a cada posto de água eu parava, tomava água, respirava e ia em frente. Pensava na força que algumas pessoas que eu tinha certeza que estavam me acompanhando pelo app, estavam me dando: A Paula, a Gabi, a Fê, a Cris, a Vivi, os chats de amigas corredoras, as pessoas que me seguem…Enfim… Pensar naquilo também me deu um gás.

A partir do 34km, eu não consegui manter o ritmo de antes. Fiz o que deu. Estava frio, um vento infernal, chuva. Quando cheguei no km 41, me deparei com a última subidinha. Parei, pensei uns 40 segundos se ia ou não kkkk, mas achei que ia ser muito feio parar faltando 1,195km pra acabar a prova. Eu não tinha a menor noção do meu tempo. Quando entrei na Boylston Street, aquele barulho ensurdecedor e o pórtico bem ali na frente. Eu fiquei mais à direita, sabia que o Fabio estava ali com as amigas da Marta. Só vi as meninas de peruca colorida gritando, mas não vi o Fábio. Olhei pra frente e vi no relógio 3h42. Comecei a chorar ali mesmo! Não acreditava que tinha feito abaixo do tempo que eu queria com todas as intercorrências! Passei o pórtico aos prantos. Foi alívio, dor, exaustão, fim de um ciclo. Foi me sentir vitoriosa por, depois de tudo que passei em 2014, conseguir completar uma Maratona de novo.

Receber aquela medalha, foi como estar recebendo a minha vida de volta numa bandeja de ouro. Cada Maratona tem a sua história, mas essa, mesmo que eu faça de novo dez vezes, vai ficar pra sempre, muito forte na minha memória!!

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