MIDNIGHT SUN MARATHON

7 de julho de 2016   /   byDebs  / Categories :  Maratona

A Noruega não é um destino muito comum, nada que as pessoas digam “Vou ali passar uns dias na Noruega”, mas deveria! Antes de falar sobre a nossa trip, que foi incrível, quero muito falar da prova.

Como eu já havia comentado no Instagram antes de viajar, a prova acontece em Tromso, uma cidade pequena, com aproximadamente 70.000 habitantes, que fica bem ao norte da Noruega. É a melhor cidade para observar a Aurora Boreal ( ainda quero voltar pra ver!) e no verão, não anoitece nunca! É famosa pelo sol-da-meia noite e a prova que fomos fazer, leva esse mesmo nome.

A propaganda toda da prova é que a largada é próxima da meia-noite, para que os corredores possam fazer a maratona e a meia, assistindo a esse espetáculo da natureza. A única coisa que esquecem de avisar é que, assim como não se vê a Aurora Boreal de dentro da cidade, o sol da meia-noite também é difícil de aparecer por lá. A cidade é muito fria e na maior parte dos dias que ficamos por lá, a garoa era constante. Confesso que quando olhei a previsão do tempo para os dias que ficaríamos lá, fiquei meio frustrada, mas, foi só correr a prova que a má impressão mudou.

A abertura da “expo” é no sábado e por ser uma prova pequena, normalmente tem inscrição até alguns minutos antes de começar a prova. Pus expo entre aspas, porque, para quem corre as maratonas maiores, a do Sol da meia-noite é bem pequena mesmo. Pra vocês terem uma ideia, esse ano foi o recorde de inscritos para os 42km: 763 corredores.

O kit não vem com camiseta. Esta você compra a parte no único stand que há na feira. Mas, como não fomos lá pra comprar e sim pra correr, ficamos atentas a vários detalhes muito peculiares da prova.

A Maratona do Sol da meia-noite, conta com distâncias para todos os gostos. Tem desde corrida infantil – 1km, até os 42, passando por 5, 10 e 21km. Todas as provas são em horários diferentes de largada e chegada, exceto a Maratona e a Meia, que se misturam nos 21km da maratona.

A prova é tão badalada na Noruega, que a Rainha e o Rei foram até a cidade, a Rainha abriu oficialmente o evento, às 15h, dando a largada da corrida das crianças e depois ficaram na linha de chegada esperando os pequenos chegarem. E é demais ver o respeito e a admiração que os noruegueses têm pelos monarcas. Na chegada da corrida das crianças, tudo que elas queriam, pasmem, não era cruzar a linha, mas sim, ter a sorte de ganhar um aceno ou um aperto de mão da Rainha Sônia.

Depois de ver a Kids Race, resolvemos voltar pro hotel – que era bem pertinho da largada, para comer e descansar. A largada das provas mais curtas era às 18h para o 5km e às 19h para os 10km.

No sábado cedo, havíamos conhecido um casal de alemães no café-da-manhã e a conversa além de ter sido muito interessante, nos fez começar a pensar em muitas coisas. Ele, estava indo para sua décima quarta maratona, ela, não corre, mas o acompanha em todas as provas e é uma staff de mão cheia! Sabe o percurso todo da prova, onde tem que esperá-lo com alguma suplementação ou algo mais que ele possa precisar e carrega com ela uma máquina enorme para tirar fotos do marido corredor. Ele ganhou essa maratona dos filhos, pelo aniversário de 60 anos. Aliás, se teve uma coisa que me impressionou muito na Midnight Sun Marathon, foi a predominância de pessoas bem mais velhas correndo a maratona. Conversando com ele, percebemos que não tem essa neura de fazer uma maratona logo. O que eles querem é viajar, correr, bater tempos sim em provas alvo, mas acima de tudo, ele nos disse, “queremos correr a vida toda”.

Uma outra coisa que nos chamou muita atenção foi o fato de, em nenhum momento, ele ter perguntado pra nós qual o tempo queríamos fazer, qual era nosso melhor tempo da vida. Conversamos sobre as provas mais legais que fizemos, as mais difíceis, as mais marcantes. Perguntei a ele se nunca havia tido o desejo de fazer Boston e ele me disse: “Ah, não gosto dos Estados Unidos!” kkkkkkk

Achei simplesmente O MÁXIMO! Desde que fiz Chicago, ano passado, estava muito a fim de sair do circuito das Majors e dessa história de só viajar pra fazer maratona. Adoro viajar, conhecer lugares novos e diferentes e se vocês procurarem, há tantas provas legais pra fazer no mundo e que não obrigatoriamente são maratonas, que dá vontade de fazer um calendário pra vida de corrida! Além disso, lá percebi e já havia notado isso em Chicago, que a maioria estava lá pra se divertir.

Eu nunca fiz, confesso, uma prova me divertindo. Sempre vou pra morte, sempre atrás de tempo e a única que era pra eu fazer curtindo, sofri horrores, que foi Amsterdam, por ter feito a loucura de correr duas maratonas em uma semana.

A meia de Tromso não era a minha prova alvo, mas claro, sempre vamos com uma expectativa. Seria hipocrisia dizer que você treina pra uma prova e não vai com perspectiva de fazer um tempo determinado. Mas aí, faltando duas horas pra começar, veio a vida e me disse assim: “Repense.”

Antes de ir pra Noruega, recebi um email da filha de uma seguidora minha, a Martinha, carioca, que sempre foi muito querida comigo, dizendo que o câncer dela havia voltado com metástase nos pulmões. A Martinha foi ao encontro que fiz em Niterói ( saiu de São Gonçalo de ônibus pra lá só pra me dar um abraço), foi ao ESPERA no Rio, sempre tinha um sorriso largo no rosto, mesmo com todas as adversidades que a vida colocou no caminho dela.

No email, a Anna me pedia para mandar uma mensagem pra mãe, porque ela estava muito desanimada e triste com a volta da doença. Na correria da semana da viagem, acabei deixando para mandar quando cheguei em Amsterdam, na conexão. Havia um outro ponto também, que cheguei a comentar com a Anita: o que eu ia dizer pra ela? Quando alguém me escreve e diz que está passando pelo primeiro tratamento, eu posso falar com propriedade sobre o assunto. Mas eu não passei por uma recidiva. Então, o que eu poderia dizer a ela? Que palavras eu poderia dizer que iriam animá-la?
Rezei, pedi a Deus que me desse as palavras certas e fiz um vídeo, que mandei pra Anna mostrar pra ela.

Quando cheguei em Oslo, pedi notícias e ela me disse que não havia conseguido mostrar o vídeo porque a Martinha estava em coma. Aquilo me deu um sentimento de culpa tão grande! Por que eu não mandei antes, no dia que ela me pediu? Ia me custar tanto tirar 3 minutos do meu dia pra fazer isso?

Lição 1 da viagem aprendida: NUNCA DEIXE PRA FAZER DEPOIS O QUE VOCÊ SENTE QUE TEM QUE FAZER NA HORA. Não custa tira 1 minuto do seu dia pra ligar pra alguém e dizer o quanto você ama, ou o quanto você é grato por determinada coisa que aquela pessoa tenha feito por você.

Então, faltando 2h pra começar a minha prova, estava sozinha no hotel, pois a Anita já tinha largado, recebo um whats app da Anna dizendo que a Martinha havia falecido. Eu fiquei tão chateada. Me deu uma crise de choro, um aperto no peito, porque apesar de não ser amiga íntima, tinha um carinho enorme por ela. E aí veio de novo, a culpa por não ter mandado a mensagem antes. A minha sorte, é que chamei algumas amigas num chat, contei o ocorrido e elas começaram a me acalmar. Me disseram pra fazer uma oração, pra fazer a prova por ela, curtindo tudo e sentindo alegria e gratidão por estar ali. E foi o que decidi fazer.

O hotel que ficamos era a 5 minutos a pé da largada, então às 10:15 saí levando uma mochila com roupa seca e um casaco para deixar no guarda-volume. Na largada, bem mais gente que na maratona e de uma faixa etária menor também. Na última hora, resolvi correr com música, coisa que não fazia há anos. Tinha montado uma lista no Spotify durante meus treinos, então foi ela mesma que decidi usar.

O frio estava de rachar. No dia anterior ficamos muito em dúvida quanto à roupa e, conversando com a Carla Moreno, ela nos disse: “Mantenham as extremidades aquecidas e o peito também” Mas, a real mesmo, é que 5 graus lá, não são os 5 de São Paulo. Apesar de não estar chovendo nem garoando, ventava muito, então, optei pela calça, uma blusa “térmica”, que só mais tarde percebi que não era térmica mesmo, o corta-vento sem manga da prova, luva, a faixa para tapar a orelha e um buff ( aquele protetor de pescoço que dá pra por no rosto). Antes da largada, eles conduzem uns 10 minutos de aquecimento, porque simplesmente não dá pra largar sem ter dado uma movimentada antes.

Quando deu a largada, apertei o Garmin e pus por debaixo da manga da blusa. Eu não queria mesmo correr “noiada” com tempo. Queria fazer a prova pela Martinha.

Tenho a péssima mania de não olhar o percurso da prova antes. Só fiz em Boston, porque realmente fiquei com medo da altimetria. Nessa, eu tinha dado uma lida em alguns blogs de corrida, olhei o site da prova, e lá, ela aparecia como plana apenas com algumas subidas. Mas a real é: até o km 10, a prova mais desce do que sobe ou fica plana. Então, é uma delícia correr! Quando comecei a ver o povo voltando do outro lado da estrada, é que me dei conta que os últimos 11km seriam dureza!

A paisagem da prova, mesmo sem o famoso sol da meia-noite é incrível. De uma lado montanhas cobertas de neve no pico. De outro, água cristalina. Uma natureza tão grandiosa, que chega ser inacreditável.

As ruas, realmente ficam muito cheias apesar do frio. A população faz da corrida O EVENTO DO ANO, então, mesmo na parte mais afastada da cidade, onde vi que eram “mini fazendinhas”, todo mundo estava pra fora de casa, com bandeiras, pompons, fazendo churrasco, tomando cerveja e torcendo! Isso, por exemplo, foi uma coisa que senti falta em Amsterdam. Na parte mais afastada ( no caso da maratona), próxima aos moinhos, eram os corredores e só!

A hidratação no site da prova, constava a cada 5km, por isso, levei uma garrafinha pequena cheia de água pra tomar o gel a cada 40’, mesmo que não houvesse posto de água. Mas, nem foi necessário, porque os postos estavam a cada 3km. Como eu estava decidida a não ir pra tempo, coloquei o relógio pra apitar a cada 40 minutos, assim saberia a hora de tomar o gel. Uma outra coisa que fiz também, como os copos de água são abertos, foi, para não molhar o pé ( porque se molhasse eu ia congelar!), parar em todos os postos, beber a água e, só depois, sair correndo. Pode não ser a melhor estratégia de prova, mas, vi muita gente da maratona passando mal de hipotermia e câimbras pelo caminho e achei melhor não arriscar molhar o pé.

É incrível como quando você desencana da tecnologia do relógio, a prova é outra. Eu corri feliz, olhando tudo, sorrindo, batendo na mão das pessoas que estavam na beira da estrada. Vi cada montanha, cada raio de sol que quis aparecer tímido aquele dia, corri lado a lado com algumas pessoas sem dar uma palavra. Era um acompanhando o outro, abrindo caminho, juntos na passada e na respiração. Muitas vezes durante a prova, me veio a lembrança da Martinha, então eu olhava pras montanhas bem altas e pensava nela ali, numa paz e num descanso inabaláveis.

Corri durante um bom tempo com uma menina que estava no mesmo ritmo que eu. Na segunda metade da prova, onde as subidas apertaram e o vento ficou na cara, ela diminuiu e perdi minha companheira de prova.

O vento começou a incomodar demais, então lembrei que quando fiz Chicago – que também venta muito, o San me disse pra sempre ficar ou no meio do pelotão dos pacers, ou atrás de alguém que pudesse cortar o vento pra mim. Vi um cabeludo correndo de cara pro vento e pensei: “É ele que vai quebrar esse vento insuportável.” E fomos juntos até o fim.

A chegada da prova é sensacional! É como se fosse aquele corredor do Iron Man, lotaaado de gente gritando e torcendo. Quando vi as grades, tirei minha bandeira do Brasil do bolso e cheguei gritando, chorando e carregando a bandeira enlouquecida!! O tempo que eu fiz foi só a cereja do bolo numa prova tão especial!

Sem dúvida nenhuma, essa foi uma das provas mais legais que já fiz. Acredito que, primeiro, pelo fato de ter curtido absolutamente cada minuto. O que eu senti, é que fiz a prova inteira muito confortável, o bicho pegou mesmo no km 19 quando resolvi acompanhar o cabeludo e acelerei. Segundo, porque a atmosfera que envolve a prova é muito legal. Você percebe que está quase todo mundo ali pra curtir e pra passear depois! Fiquei realmente impressionada com a hospitalidade das pessoas em Tromso.

Quanto ao frio, para mim, não me incomodou até o km 18. O que eu senti, é que, se estivesse na maratona, ia precisar de uma blusa REALMENTE térmica, que não deixasse escapar o calor do corpo.

Durante a prova também, tomei uma decisão: já corri quatro maratonas LINDAS fora do país. Em todas elas, gastamos uma grana pra ir e se vocês me perguntarem DETALHES da prova, eu não saberia dizer. Sei dizer como me senti, emoções, uma ou outra coisa que me chamou atenção, mas nada como foi em Tromso. E ali, pensei muito no quanto perdemos tempo e dinheiro correndo atrás de marcas cada vez melhores. E pra atingir tempos maravilhosos, você não faz a prova sem sofrer. Ou pelo menos, eu não.

Então, decidi que as provas que quero ir pra “morte”, serão provas mais baratas, aqui pelo Brasil ou na América do Sul. As provas mais bonitas, aquelas que passamos um ano planejando e guardando dinheiro, quero fazer feliz! Quero dar notícia de tudo! Se o tempo vier lindo, como foi nessa meia, ótimo! Mas se não vier, ótimo também!

Não vivo disso, não sou profissional; sou corredora “velha”, do tempo que nem Garmin existia. O que quero é viajar, conhecer lugares correndo. E, conhecer lugares correndo não implica necessariamente em fazer uma maratona. Por que não podemos planejar uma trip pra correr 10km ou uma meia? É corrida do mesmo jeito e não tem o desgaste que os 42km provocam.

A Midnight Sun Marathon, com todas as suas distâncias, é uma EXPERIÊNCIA que vale a pena viver. E se você tiver a chance de conhecer o resto do país depois, essa experiência de vida estará completa!

7 comments

  • Responder

    Ana Paula / 07 jul

    Incrível como parece que estava lá correndo com você lendo o seu relato!!

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    andrea pasold / 07 jul

    ah, minha amiga, essa parte eu já sabia…nas provas fora, que eu gastei uma grana, eu quero é ser feliz e me emocionar com a vida, tempo faço em casa, né? Voce descobriu o significado de “sofrer a metade e se divertir em dobro”? Eu em Amsterdã!!! Mas a viagem toda foi linda, pelo que fui acompanhando. Quem sabe conseguimos uma dessa juntas? beijos

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      Debs / 07 jul

      Pois é! Quero mais é ser feliz e dar notícia de tudo! Se vier um tempo bom, mara, senão, mara tb! kkkkkk
      Saudade!

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    Barbara Oliveira / 11 jul

    Bom dia Debs, te sigo a um ano e meio quando resolvi correr realmente. Me diverti muito com vc e Anita nessa viagem, chorei pela Maritnha sem mesmo conhece-la. Tbm quero correr para me divertir fiz meus primeiros 21km esse ano na meia do Rio, se vc pudesse me falar quais provas são legais para fazer 21km dar dicas eu ia agradecer.

    Beijos e obrigado por todos ensinamentos.

    Barbara

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      Debs / 11 jul

      Lindona!!! Muito obrigada!!!
      Vou fazer um post sobre isso!!!
      bjs!

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    Luciana / 28 jul

    Que lindo!!! Acompanhei sua viagem pelo Snap e achei demais…e lendo este post me emocionei, chorei mesmo!!!
    Sou sua fã!!!

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