O CONVITE PARA A MARATONA DE NOVA YORK

1 de agosto de 2017   /   byDebs  / Categories :  Coaching Esportivo, Corrida, Maratona

Há muitos dias tenho tido vontade de escrever sobre o convite que recebi da New Balance para correr a maratona de Nova York. É verdade que eu tinha colocado no meu quadro dos sonhos correr essa prova. Mas vou confessar que estava ali, sem data definida, porque eu realmente não pensava em correr uma maratona esse ano. E vou explicar o porquê.

Ano passado, quando fiz Buenos Aires e quebrei feio, andando por 12km até a linha de chegada, me prometi que não ia mais correr mais maratonas. A prova foi sofrida, passei MUITO mal, não vi graça em estar lá, não queria terminar a prova ( mas isso é assunto para outro post). Já faz muito tempo que não acho superação terminar uma prova morrendo. Na verdade, passei a achar uma loucura.

Enfim, quando voltei de Buenos Aires, ainda tentei encaixar uma prova de 10km, mas realmente estava de bode de correr e resolvi me dar um tempo. O tempo durou 3 meses, que foi quando decidi mudar de assessoria. Eu queria algo presencial, uma pessoa que pudesse estar ali me vendo correr, porque sim, a técnica faz diferença quando você chega num determinado tempo como corredor ( e já tenho 13 anos nas costas!), queria mudar. E mais que isso: queria resignificar a corrida na minha vida.

Quem me acompanha desde Berlim sabe que eu era fissurada por tempo, por pace, por me provar ( e provar para os outros)  o tempo todo do que eu era capaz. Mesmo depois do meu tratamento, a corrida continuou a ser algo que fazia para mim, mas para os outros também. A vontade sempre de postar um tempo, uma foto do Garmin, aquelas coisas que dão uma massageada boaaa no ego de quem corre.

Quando fui fazer a “entrevista” na nova assessoria, o Ademir ( meu novo treinador), me ganhou quando ele disse: “Acho que você precisa dar 10 passos pra trás para dar um pra frente. Você saiu de um tratamento de câncer e se jogou em três maratonas. Que tal voltar um pouco às raízes?” E então comecei meu ciclo de treinos em janeiro.

Eu, por natureza, e em todos os aspectos da minha vida, sou uma pessoa que se cobra demais. Quando decidimos em conjunto que eu não correria os 42km em 2017, parece que a corrida foi ficando mais leve, que tinha voltado a ser o que era antes pra mim. Gosto de me desafiar? Sim! Mas o me desafiar, durante muito tempo,  baseava-se em comparações com os outros. E quando você se compara com o outro, você se perde da sua essência. É claro que isso é um trabalho diário e que a maioria das pessoas não tem coragem de fazer. Porque entrar em contato com isso, é olhar para aquele lado mais obscuro da nossa pessoa…

Confesso que como fui melhorando muito ao longo do ciclo de treinos, entrei (de novo) na vibe do “colocar a foto no app do Nike Plus com o tempo e a distância”. E o que isso provoca? Aqui, vai um pouquinho das premissas que usamos no Coaching Esportivo.

A maioria das pessoas que atendo, vem com a demanda de “não aguento mais viver me comparando com os outros”, “não aguento mais ter que suprir a expectativa dos outros”. Quando uma pessoa posta todos os treinos, tempos, o que fez, o que não fez, o que ela está gerando nas outras que vêem aquilo? Expectativa. E aí começa o ciclo: as pessoas criam expectativas em cima dos seus resultados porque você posta, e você cria expectativas não só em cima dos seus treinos, como em cima das expectativas e comentários das outras pessoas. Isso é inerente ao ser humano. Por mais que você seja um ser evoluído, que me diga “não ligo a mínima para que os outros pensam”, quando se trata de massagear o ego, a conversa é bem diferente.

E foi exatamente o que aconteceu comigo na minha prova alvo do primeiro semestre desse ano. Eu tinha uma expectativa alta, não só pelos meus treinos, e no dia da prova, deu absolutamente tudo errado. Obviamente que uma prova conta com fatores externos que estão absolutamente fora do nosso controle, mas digo a vocês que a frustração é bem grande quando você tem uma expectativa elevada.

Logo depois da prova operei e tive que ficar 20 dias parada. Confesso que já estava com aquele bodinho da corrida de novo. Mas comecei a me perguntar o porquê. Toda vez que tenho uma grande frustração na corrida, vem aquele bode. E o que é isso? Dificuldade em lidar com a própria frustração? Dificuldade em lidar com os julgamentos? Dificuldade em lidar com fracassos? Esse é o grande “barato” do autoconhecimento: você começa a se fazer perguntas assertivas para enxergar o que está errado e o que pode ser mudado.

O Ademir, meu treinador, sempre diz que é no fracasso que temos os maiores crescimentos. E sou obrigada a concordar. É no fracasso que enxergamos o que fazemos de errado, é no fracasso que aprendemos a lidar com a frustração, é no fracasso que associamos uma dor a um determinado padrão de comportamento.

Segundo Anthony Robins, para que uma mudança seja permanente, devemos vincular a dor a um comportamento antigo e prazer a um novo comportamento, até que ele se torne coerente. Isso porque somos capazes de muito mais para evitar a dor do que para alcançar o prazer. Faz sentido para vocês? Para mim, faz todo sentido.

E aí, para que eu mudasse esse meu padrão ( que já é bem antigo), o Meu “parça” Uni (verso rs), me deu uma ajudinha: recebi o convite da New Balance para fazer a Maratona de Nova York. A proposta da NB, não é levar ninguém para fazer seu “personal best”, mas sim, que os convidados vivam e contem a experiência de correr essa Maratona tão incrível. Para mim, uma proposta bem diferente, já que eu sempre ia buscando tempo.

Quando conversei com o Ademir, ele me disse: “Vou te treinar pra correr essa prova, você não vai passear. Mas não quero que você se preocupe com tempo. Quero que você se preocupe em viver o propósito do convite e que termine a prova bem e feliz. Em relação a estratégia, só vamos falar disso, antes de você ir, ok? Sem neuras, sem expectativas.” Parece fácil quando ele fala, não é? Mas esse vai ser um exercício diário. E vem muito de encontro ao propósito que hoje falta na corrida e que eu mesma, muitas vezes me perco.

Por que as pessoas correm?

 Se o seu propósito é ser o melhor, esteja alinhado com ele e siga em frente. Ninguém tem o direito de julgar. Se o propósito é correr para fazer um run tour, tirar fotos, fazer snaps, qual o problema? Está coerente com o que você quer? Siga o caminho! Se o seu propósito é viver uma experiência de correr 42km e nunca mais fazer isso, ok também! O importante é estar alinhado com o que você quer. E a partir do momento que você se alinhar com o que está coerente para você, o que os outros fazem ou deixam de fazer, é problema deles! O mal do século hoje, na minha opinião é o julgamento. Não concorda, não segue, não curte. Achou que a pessoa está too much, aperta o unfollow. O exercício do não julgar é extremamente desafiador, mas quando você começa a colocá-lo em prática, a sua atenção começa a se voltar para quem realmente interessa: você. 

Desta vez, vai ser uma maratona diferente. E como toda maratona, o processo todo começa nos treinos. A minha associação à “dor” de uma frustração, está me fazendo enxergar a corrida com outros olhos. Para mim, entendem? Quero fazer dessa jornada um processo de resignificar a corrida na minha vida. Não vou partir pro time do f*** o pace, porque essa não sou eu, mas não preciso ser do time que faz da corrida o mote da vida. A corrida é parte da minha vida. Tenho outros pilares que são muito importantes e que não quero que  desmoronem por causa dela.

Lá em 2013, eu achava uma superação deixar minha filha todo final-de-semana sem ter muito o que fazer porque eu estava morta dos treinos, achava o máximo ser mega ultra blaster regrada na dieta porque isso ia melhorar minha corrida, achava o máximo dizer que tinha ficado sem algumas coisas legais da vida porque estava focada na maratona, na performance, em ser uma ótima corredora. Hoje, eu ainda quero ser uma boa corredora. Mas não quero abrir mão dos momentos que tenho com a minha família. Não quero abrir mão do tempo com a minha filha. Acho que ela pode se orgulhar da faceta mãe corredora sem eu precisar deixá-la de lado. Tenho certeza que os momentos que passo com ela são os que vão realmente ficar na cabecinha dela lá na frente. Hoje, quero poder sair pra jantar e tomar meu vinho, comer minha sobremesa. Quero poder escolher mais por mim e menos pelos outros. E muitas vezes, se vocês pararem pra pensar, nem sabemos quem são esses outros realmente.

Quero associar um prazer a viver uma experiência de corrida sem expectativas. Extremamente desafiador! Qual vai ser esse prazer? Ainda não sei, mas acredito que lá em novembro, depois da maratona, eu tenha a resposta para vocês!

Bons km’s!

 

 

3 comments

  • Responder

    Maria / 01 ago

    Message
    Parabéns, Debs! É isso aí! Corro há 22 anos. Pangaré, sabe? Fiz 3 maratonas, dezenas de meias e 20 São Silvestres… sou esposa, mãe, avó servidora pública. Corro única e exclusivamente pelo meu prazer! Meu sonho é correr NY. Será meu desafio em 2018! Força, foco e fé, garota! Bjs

    • Responder

      Debs / 02 ago

      O verdadeiro propósito da corrida, né?

  • Responder

    Vanessa / 11 ago

    Li agora e amei esse post. Tão verdadeiro e tão real. Obrigada! Tb sou profissional, mãe de 2, esposa. Ralo, batalho e corro por prazer. E essa explosão de posts de pace, velocidade, resultado, tempo, patrocínios, publiposts realmente fazem pensar!
    Mas fiquei curiosa quando li que na sua prova alvo as expectativas não se realizaram. Vc fez uma super prova e um excelente tempo!
    Sou sua fã! bjks

Leave a reply

Blog antigo