TREINO ÀS ESCURAS

2 de agosto de 2017   /   byDebs  / Categories :  Coaching Esportivo, Corrida, Maratona

Vocês sabem qual a primeira habilidade que temos que desenvolver para acabar com aquele diálogo interno que todo corredor tem em algum momento de um treino mais desafiador ou de uma prova? É manter a consciência livre de julgamentos. E aqui não falo de julgar o outro. Falo do auto julgamento. Quando deixamos de nos julgar, descobrimos que não precisamos de motivação para mudar nossos hábitos “ruins”. Precisamos estar simplesmente mais conscientes. E entendam: não julgar é diferente de não observar. Não julgar, significa apenas observar de maneira neutra o que os seus olhos vêem.

Um dos maiores vilões, na minha opinião, dos corredores, é o Garmin ( Polar, TomTom, qualquer relógio que marque o pace). Há 13 anos, quando comecei minha vida de corredora, corríamos com relógio normal, ligávamos o cronômetro na largada e desligávamos na chegada. Os mais experts em matemática ou quem já tinha feito Kumon em algum momento da vida, conseguiam calcular ao longo da prova, o ritmo de cabeça. Claro que em alguns momentos o Garmin ajuda muito. Mas estou chegando à conclusão, que mais atrapalha do que ajuda.

Por causa dele, uma grande parte dos corredores não sabe sentir seu próprio corpo, não sabe sentir sensação de esforço mínimo, médio e máximo, não sabe precisar em que velocidade está correndo só pela respiração e pelo coração. E não pensem que não me enquadro nesse grupo não. Mas esse é um dos vários pontos que quero trabalhar nesse ciclo para Nova York.

Há uns meses, quando chegamos para o treino de segunda-feira, lá estava o Ademir com um rolo de silver tape na mão, tampando todas as telas de todos os garmins. Foi tampando e dizendo: “Saia pra correr 6km a tanto.” Aí veio aquela chiadeira geral: “Ah mas como vou saber que estou nesse pace que você quer?? Isso não vai dar certo!” Ele disse: “Apenas corram sentindo o corpo de vocês. Essa velocidade de hoje não é pra morrer, tem que ser confortável.” E então, cerca de 30 alunos saíram para essa experiência às escuras. Sabem qual foi o resultado? todos, absolutamente todos os atletas correram de 10 a 15 segundos abaixo do pace que ele havia mandado.

Hoje, aconteceu parecido. A diferença é que o treino era de tiro. “Nossa, mas fazer sem olhar?” Sim! E o resultado? No tiro de 1km, 20 segundos abaixo do que ele pediu. Não é incrível? Rs

E sabem o que isso significa? Que quando você não olha, você não se julga. Quando você não olha, você não pode dizer na sua cabeça: “Vixi vou quebrar porque estou muito rápido.”ou “Ah, nunca consigo fazer na velocidade que ele manda!”. Você simplesmente vai lá e corre! Você simplesmente corre sentindo seu corpo, atendendo ao que ele pede, com a mente neutra, sem julgamentos. Quando estamos com o relógio, olhando de 5 em 5 segundos, não vivemos o momento presente, não vivemos aquele tiro de 400m, 500m ou 1km que está ali à nossa frente. Quando estamos com o relógio, não estamos dedicando nossa atenção plena à corrida, ao movimento, à respiração, ao nosso corpo.

Temos um “ser” dentro de nós que vive em busca de aprovação. Esse “ser” que fica ali, sempre escondido, evita críticas e vê o elogio como uma ameaça, porque pode se transformar num fracasso. É nesse ponto que a nossa concentração fica comprometida pela interferência do ego. Nós adoramos refletir, calcular, fazer o planejamento tim tim por tim tim, pensar no que deu certo, no que deu errado. Mas pensem que as grandes conquistas acontecem quando não somos muito racionais. Para chegar a grandes conquistas, precisamos resgatar a nossa criança interior e, em alguns momentos, voltar a agir como tal: sem pensar.

D.T. Suzuki, autor do livro Zen in the Art of Archery, descreve os efeitos do ego de uma forma tão simples e tão clara, que vale a reflexão:

“Assim que refletimos, deliberamos e formamos conceitos, o estado inconsciente é perdido e o pensamento começa a interferir… A flecha sai do arco, mas não segue diretamente para o alvo, e o alvo já não está no mesmo lugar. O excesso de cálculo acaba levando ao erro…”

Correr bem não é necessariamente correr rápido. Correr bem não necessariamente é ter sucesso em absolutamente todas as provas. Correr bem é saber sentir seu corpo, saber qual o seu ritmo, é enxergar e aceitar a sua corrida como ela realmente é. Quando você está imerso numa busca incessante por números, muitas vezes deixa de desenvolver outras potencialidades. Na maioria das vezes deixa de aproveitar a experiência, deixa de apreciar as sensações que o esporte te traz.

Que tal tentar pelo menos um treino às escuras por semana e ver o que acontece? Aos poucos, os dois relógios, o interno e o de pulso, vão se acertando! Façam e me contem depois como foi!

Bons km’s às escuras!

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