Engraçado… Quando eu tive a ideia de fazer esses posts no Dia Mundial de Combate ao Câncer, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a minha mãe. A forma como ela encarou tudo, mesmo não tendo feito quimio, foi demais. Eu sempre digo que queria ter a metade da fé que ela tem. Não estou falando de Deus. Fé em tudo. Fá na vida, nas pessoas. Fé que coisas boas acontecem sim, depois de um baque desses. Fé que a vida nos dá coisas duras, mas também nos dá forças pra suportar.

Minha mãe sempre foi meu porto seguro. Sempre foi minha amiga, procurava colocar sempre pensamentos positivos na minha cabeça, sempre me fazia enxergar a metade cheia do copo. Se hoje sou assim, devo tudo a ela. Quando e tive a notícia, achei que ia morrer. Porque não sei lidar muito bem com perdas. E sempre que se fala em câncer, a primeira palavra que você pensa é morte. E pensei: “Meu Deus, minha mãe vai morrer!” Mas ela não morreu! Ela não teve que fazer quimio, acho, sinceramente, que isso ME fez ficar mais tranquila.

Eu não consigo imaginar o que foi pra ela quando eu contei do meu diagnóstico. Porque não consigo pensar em ver a Duda passar por isso. Não consigo me imaginar cuidando da Duda como ela cuidou de mim durante as quimios vermelhas. Mas sei hoje, de onde tiramos forças quando temos um diagnóstico desses. Sei que têm dias (como o de hoje, que estou escrevendo esse post) que são muito difíceis. Mas que vão passar. O pensamento positivo ajuda muito. Só queria poder falar pro mundo que o câncer mata? Mata. Mas acidente de carro também mata. Bala perdida mata. Você pode ter câncer e não morrer dele. Queria que as pessoas parassem de dizer que quem faz quimio está doente. Quem faz quimio não está doente. Quem faz quimio está indo em direção à cura!

Se o câncer é surpresa pra todo mundo, no meu caso foi em dose dupla.

Meu câncer foi totalmente assintomático. Nos exames de rotina, a mamografia detectou alguns nódulos que foram classificados como “aparentemente benignos”, mas com recomendação de exames ultrassonográficos e a classificação Birads IV.Na ultrassonografia, o médico também não estava notando nada de anormal, achou que os nódulos eram de gordura e já ia dar o laudo confirmando a benignidade, quando a dona da clínica, uma médica conhecida pelo seu “olhar de RX”, entrou na sala, viu a telinha e discordou do colega. Para ela, a configuração dos nódulos sugeria risco de malignidade.E recomendou uma punção.

Com 76 anos, saudável, velhinha de academia, sem nunca ter tido qualquer moléstia grave, aquele pedido de biópsia era apenas mais uma precaução do meu mastologista de 20 anos, sempre muito cuidadoso e atento.

Fui pegar o resultado sozinha, na maior tranqüilidade.Quando li “carcinoma ductal” a atendente já estava ao meu lado com um copo d’água… De repente, você não tem chão, fica solta no ar… Como assim, câncer?!

Há uma semana atrás a Déborah tinha confirmado uma gravidez tão esperada por ela como por mim!Era o meu primeiro neto chegando, como assim eu com câncer!??? Minha primeira reação, juro: eu não vou morrer. Deus acabou de me dar um presente, claro que Ele vai me dar também vida, saúde e energia para curtir esse presente. Chorei, fiquei sufocada, sem poder respirar direito, mas tive absoluta certeza que tudo ia acabar bem. O problema maior era dar a notícia à Déborah: comecinho de gravidez é fase complicada, um susto grande poderia ter conseqüências graves… Com a ajuda e cumplicidade do Fábio armamos um plano para só contar a ela depois de tudo resolvido: data da cirurgia, prognósticos mais precisos depois dos exames complementares, enfim, o menor número de dúvidas possível.

Fomos contando das suspeitas do médico, de exames cujos resultados só daí a 10 dias, mas a reação dela era sempre a mesma: “imagina mãe, não vai dar nada. Você sempre foi tão cuidadosa…” No dia combinado, com o Fábio ao lado dela, dei a notícia por telefone, eu em Brasília e ela em São Paulo.E confiei plenamente em Deus:tudo ia dar certo, comigo e com ela.

Fiz a mastectomia; como os linfonodos não estavam contaminados e o tumor era muito pequeno não precisei fazer quimio nem radioterapia. Seis meses depois, quando começava a fazer a primeira bateria de exames de acompanhamento, a Duda resolveu nascer com um mês de antecedência… Sempre as surpresas!… Deixei tudo em Brasília e fui para São Paulo conhecer o meu presente, ajudar a Déborah e agradecer a Deus por tudo.

Claro que esqueci do câncer.Eu tinha coisas mais importantes pra fazer na vida.E, acima de tudo, eu tinha, tenho e sempre vou ter Deus comigo, em mim, presente, atuante, regente dos meus dias. Até agora meus exames estão perfeitos. E vão continuar assim.

O câncer da Déborah me assustou muito mais do que o meu.Mas só num primeiro momento, porque com ela também deu tudo certo: o caminho dela está sendo muito mais difícil do que foi o meu, mas a presença de Deus é tão real quanto foi comigo. A força vem Dele e a cura também.Estamos ambas curadas e prontas para cuidar da Duda.O que já é uma senhora tarefa!

É difícil dar um conselho a uma pessoa que tem um diagnóstico positivo de câncer. O medo é grande, a doença assusta, a ideia de morte rápida apavora. Nos mais jovens a reação é ainda pior, ante a possibilidade de perder tudo que a vida está apenas começando a oferecer. O contraponto a tudo isso é uma coisa que tem que ser cultivada desde a infância: o otimismo. Acreditar que tudo é possível, desde que você lute, faça o que tem que ser feito, e tenha fé em Deus. A doença tem cura e a responsabilidade do sucesso é dividida entre os médicos e você. Eles dispõem da ciência e você da vontade. É a sua cabeça que comanda as reações do seu corpo. Ela ajuda ou prejudica o efeito de qualquer tratamento. A partir do momento em que você acredita que é parte integrante e indispensável do seu processo de cura, a guerra está ganha e você terá força para enfrentar as diversas batalhas que terá pelo caminho. E não se desgrude de Deus. Deus pai, Deus amor, Deus força.

Você não será mais o mesmo, depois de vivenciar um câncer.A experiência é muito marcante, o impacto é duro e não há como continuar encarando a vida da mesma forma.A revisão das suas prioridades, a clareza com que você passa a enxergar as coisas e as pessoas, a impossibilidade de rejeitar a realidade, seja ela qual for, feia ou bonita, é inevitável. Mas a mudança é para melhor.Você se torna mais verdadeira, mais corajosa, mais humana.E aprende uma coisa fundamental: doença não é castigo assim como saúde não é prêmio.Ambas são parte da vida.Cabe a você fazer da vida o melhor possível, sempre, em todas as ocasiões, em todas as oportunidades que tiver e colher os frutos das suas decisões.