Se você quer paquitagem, não vá correr uma prova de aventura. O esquema é bem diferente do asfalto. Agora, se você quer viver uma experiência, vá fazer uma etapa do KSeries ou qualquer outra prova de montanha.  Quando a Paula surgiu com a ideia de fazermos essa prova, eu estava tão enrolada com o outubro rosa, que nem me toquei o que era. Ela mandou um email pra mim e pra Gabi, dizendo: “Vamos correr 21km pra encerrar o ano?”. Como já estava fazendo uns longuinhos, achei que não teria problema.

Faltando UMA semana pra prova, resolvi dar uma entrada no site. Sabia que não era em São Paulo e que teriam umas subidinhas. Quando eu vi a altimetria e o esquema da prova, falei pra elas: “Nós vamos pros 10km”. As duas já tinham feito o Cruce, mas eu nunca tinha feito uma prova nesse estilo.

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Como nunca tínhamos viajado juntas, seria uma ótima oportunidade disso acontecer. Combinamos sexta à noite na casa da Gabi para irmos no  mesmo carro. A palhaçada já começou saindo de São Paulo, quando nos perdemos pra pegar a marginal. Nós não tínhamos anotado o endereço do hotel, mas Quality inn em Jundiaí não teriam muitos, né? kkkkkk

Chegamos no hotel de madrugada e descobrimos que fazia parte da política deles, não ter apartamento triplo. Mas não íamos dormir separadas de jeito nenhum! Então, a solução, foi pegar o colchão do quarto do primeiro andar, colocar no elevador e colocar no outro quarto, que era no quarto andar. Olha, acho que nunca dei tanta risada na vida. Foram quase dez minutos pra levar o colchão porque a gente não parava de rir! Juro que me senti na época da adolescência! Ficamos conversando até quase duas da manhã, sobre todos os assuntos que vocês possam imaginar e o menos falado foi corrida. Ali eu descobri que, entre nós, existe uma coisa chamada empatia. E isso, ou existe entre as pessoas ou não. Não se cria nem se planeja. Com elas eu posso ser eu mesma, sem frscuras. Posso fazer xixi de porta aberta, falar bobagem, comer três pratos de ovo mexido no café sem recriminações. Posso xingar até a morte todas as subidas, pedir pra elas me esperarem sem achar que elas estão bravas por não estarem no ritmo delas. Isso é amizade, isso é empatia. Amizade sem caras e bocas, sem cobranças.

Acordamos no outro dia bem cedo, pra dar tempo de tomar café e fazer a digestão, já que a largada da prova seria às 9 da manhã. Primeira dica: saiba pra que tipo de prova você está indo. Rs. Existe um tênis específico para fazer trail run e só que estava com esse tênis era a Gabi. Eu e a Dona Narva, fomos de Pegasus ( vai vendo!). O Pegasus é um ótimo tênis pra correr. No asfalto. kkkkkk. Eu tinha levado uma bermuda ( nesse ponto tive noção rs), mas as duas iam correr de saia e a Paula tinha levado uma saia a mais. Pra gente ir paquitando igual, peguei a saia emprestada.

Quando chegamos lá, que eu vi todos os corredores de montanha devidamente paramentados pra prova, percebi que o negócio ia ser mais feio do que eu tinha imaginado! No começo da prova, não deu muito pra correr, porque o caminho era mais estreito e tinha muita gente. E também, esse tipo de prova – e isso aprendi lá- não é daquelas que você cooorre. Você trota, corre, anda, rasteja. Na primeira subidinha, e era “inha” mesmo, eu já morri. A formiga atômica da Narvaez, que ama uma subida, foi me ensinando técnicas pra subir. Realmente, se você sobe andando, vai cansar muito mais do que se subir trotando.

Ela me disse: “Corre mais na ponta do pé e passos mais curtinhos, vai cansar menos. Não tenta abrir a passada.” Eu já tinha dito que quem ia treinar as subidas pra Boston comigo era ela. A bichinha tem um gás nas pernas que é uma coisa de louco. Nessa primeira subida, ela e a Gabi foram mais à frente e eu fiquei pra trás. Não é segredo pra ninguém que odeeeeio subidas e que morro nelas. Mas preciso aprender a lidar com elas, né? Uma outra coisa que ela me disse: “Pra Uphill eu não fiquei treinando subida sem parar. Prova de subida você faz na sala de musculação, com a fundo e agachamento. Tem que estar com as pernas fortes”. Bom, as duas subiram e ficaram me esperando no alto da primeira subida. Falei pra elas, que se elas quisessem ir, eu ia ficar, porque estava cansada ( com 800m de prova kkkkk). Mas elas disseram: “Viemos aqui pra fazer isso juntas e vamos fazer.”

A partir dali, foi uma subida praticamente vertical. E single track. Passava um por vez, não adianta querer ficar nervosinho querendo passar. Era andando mesmo. Eu juro que senti uma invejinha das pessoas que tinham aquele bastão tipo bengala, sabe? Quase peguei um galho de árvore pra dar uma força. kkkkkk mas a subida ao ponto culminante dos 10km, valeu a prova. Que visual! Todo mundo parando, tirando foto, ouuutro tipo de prova.

Como tudo que sobe, desce, depois do ponto culminante, veio uma descida nervosa. Eu, com aquele tênis super apropriado pra trilha #sqn, comecei a segurar muito a descida, com medo de cair. Numa prova dessas, se você não sabe como descer, a queda é praticamente inevitável. E o negócio dessa prova é que, você sai de uma caminhada subindo pra uma descida nervosa onde você pode “socar a bota”. Só que a perna parece que não entende isso, se você não se preparou pra esse tipo de prova. A coxa e a panturrilha praticamente um tijolo de tão duras e não tem pra onde correr; tem que acabar a prova.

Quando passamos a placa do 5km, me deu um certo desespero, porque achei que já estávamos no 8! E aí, veio a melhor parte da prova. Chegamos num ponto alto, onde tinha um moço pra nos ajudar. Quando eu olhei pra baixo, uma pirambeira com uma corda e terra. Mas pensa numa terra e numa coisa inclinada praticamente no sentido vertical. Me deu um ataque de riso, de nervoso. Rs. A gente de saia de corrida, tênis sem as ranhuras, sem luva pra pegar naquela corda de sisal. A Paula foi na frente, toda corajosa ahahah e antes mesmo que eu pegasse a corda, ela tomou um tombo. A gente não conseguia parar de rir e foi-se formando uma fila enorme atrás da gente. Com certeza, todo mundo pensou: “o que essas malucas estão fazendo aqui?”

Quando terminou essa piramba da corda. pensei: “bom, nada pode ser pior que isso”. Mas pode. Chegamos num riacho, cheio de pedras, que tínhamos que margear e algumas vezes, andar nele. O tênis virou uma lama só, já não dava mais pra correr porque dentro dele tinha pedrinha, lama, água. A Gabi levou um tombo dentro do rio, e a única coisa que conseguíamos fazer era rir.

Eu bati a cabeça num tronco, porque ao invés de prestar atenção na prova, estava prestando atenção na DR das duas rs.

Mas foi uma experiência sensacional. Diferente do que vemos nas provas de asfalto, muito pouca gente vai pra tempo. As pessoas estão ali pra se divertirem. Vi muitos casais fazendo juntos, muitos amigos também. Vi muita gente que não se conhecia ajudando quem caía, dando água pra quem precisava, prestando algum tipo de socorro, dando dicas. Um homem que estava na frente da Paula na hora da corda, é que foi dando dicas pra ela de como descer. Ajudou, deu a mão, mandava mudar pra lá ou pra cá.

Chegamos juntas, de mãos dadas, porque foi exatamente assim que começamos. Ninguém largou ninguém pra trás. E juntas, fomos muito mais fortes, do que se estivéssemos separadas!